segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A POESIA ENVERGONHADA



(texto originariamentae publicado no jornal RIOLETRAS)

Li agora O mundo como idéia, de Bruno Tolentino, que reúne poemas de 1959 a 1999 em 445 páginas, sendo 73 de prólogo. Não ousarei, por enquanto, fazer comentário algum sobre a obra. Quero antes pensar sobre este objeto livro de poesia. Ele foi escrito ao longo de quarenta anos, período em que o poeta foi se formando também. E é claro que poderia ter sido feito em menos tempo: digamos em 4 ou 5 anos. Mas, como se trata de um livro bastante sofisticado, para se ter um autor capaz de escrevê-lo é preciso muito mais tempo. Tolentino, por exemplo, terminou-o com 59 anos.
No livro da Editora Globo não aparece a tiragem que, não creio, ser superior a três mil exemplares. Surge a pergunta: Quantos leitores há para um livro de poesia e que tem, como agravante, 445 páginas? Poucos, muito poucos, nada além de 500, presumo. Sabemos, de antemão, que o público de poesia é pequeno; de uma obra de 445 páginas, menor; e de uma obra de poesia difícil com 445 páginas, menor ainda. Como alguém, então, persevera por 40 anos para escrever um livro para os supostos 500 leitores e que talvez tenha como expectativa de remuneração de 5 a 10 mil reais, em cinco anos de venda?
É óbvio que o autor não depende de direitos autorais para o seu sustento, nem que escreveu a obra com tal intuito. Escreveu-a, no entanto, para ser lida por estes 500 possíveis leitores e talvez mais 1000 nos próximos dez anos. Primeiro, não há por que não estarmos de acordo quanto ao fato de que não podemos esperar rentabilidade de um livro de poesia, especialmente se ela for mais elaborada, como é o caso (Que escrevamos, portanto, sem pensar no pagamento dos direitos autorais!). Segundo, sabemos que o número de leitores virtuais também é bem pequeno (Que escrevamos, portanto, sem valorizar o livro pelo número de seus leitores!).
O mundo, desde a produção em larga escala e da cultura de massa, não quer saber de produto com 3 mil unidades e com 500 receptores em potencial. Logo, este livro de poesia não desperta o interesse do mundo, que prefere produtos, que não livro, e com potencial de venda muito maior. Isto significa que o quadro de publicação e venda de livros de poesia parece estável: ruim e sem perspectivas de mudanças. Em Aforismos , Antonio Carlos Secchin diz o seguinte: “No que toca à circulação da poesia, as noites de autógrafo se transformam em rituais simultâneos de batismo e óbito de um livro, que, fora dali, não será mais visto em lugar nenhum.” Tal fato, se não for uma verdade absoluta, está perto de ser.
Já que editores e livreiros não se interessam pelo produto livro de poesia, cabe aos escritores pensar em como divulgá-lo e distribui-lo e em como aumentar o número de leitores. Sei que neste ponto, como ocorre com a maioria dos problemas do país, esbarramos no descaso eterno com que é tratada a educação, cada vez mais privilégio de classes mais favorecidas, como se diz, “eufemisticamente”. Sem Educação, não há consumidor de cultura e, em particular, de produtos culturais que exijam mais refinamento como a música clássica, as artes plásticas e a poesia, visto que o público para a música popular, o cinema comercial, a comédia teatral e o romance best-seller é bem maior.
Não devemos, entretanto, fingir que a poesia não é poesia, e travesti-la de letra de música, de poesia falada, de fala teatral, pedindo desculpas, envergonhados, por fazermos livros de poesia. Lembro-me sempre de um episódio em um aula de filosofia, quando um colega pediu ao professor para explicar Kant de maneira mais fácil. O professor, gentil, disse “que poderia fazê-lo, mas só que não seria mais Kant”. Ou seja, temos que ter atenção para o fato de que, desejosos muitas vezes, de querer divulgar ou popularizar a poesia, estamos fazendo de algo que não é mais Kant, isto é, poesia.
O mundo não está muito interessado em livros como O mundo como idéia, mas, sem saber, ele precisa de livros deste calibre e de tantas outras obras de arte feitas para poucos. E, reparem, neste caso não se trata de elitismo, de privilégio de classe alta, visto que autores e leitores normalmente não cuidam muito de questões materiais.
Como tema para reflexão, fica a pergunta: Quantos leitores teve a primeira edição de As flores do mal, de Charles Baudelaire?
No entanto...

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