sábado, 10 de abril de 2010

Tanussi e Bandeira, 2 românticos de morte

Poemas publicados em vídeo em;
http://papopoetico.blogspot.com/

Tanussi Cardoso

Livro:

50 POEMAS ESCOLHIDOS PELO AUTOR

Edições Galo Branco


GESTOS


O que vem de dentro

pudera nunca se exprimir

palavra

O que vem de dentro

é ouro

puro silêncio

pudera nunca se exprimir

mundo

O que vem de dentro

é tudo

só se pode exprimir

mudo


TEIAS


Alimentar aranhas,

eis o meu ofício.

Deixá-las criar tentáculos.

Moscas mansas

apaixonadamente sangrar.

Cuidá-las para tecer

os pequenos vícios

do seu tear:

venenos sutis

tatos improváveis

-vivê-las.

Redescobrir as cores

as sedes e as sedas.

Entrelaçar as sendas

do meu destino nelas:

véus de astúcia

morte e viuvez.

Decifrar sua dança:

rede de valsas

fios de arame.

Aprender com elas

o ritmo do salto.




COMO SE NÃO FOSSE ADEUS


A vida se vai como o gelo se desfaz:

lento, frio, queimando as mãos.

Nem as baratas me comovem mais.

Nem as moscas. Nem os cães.


(Dentro de mim,

a família é um osso a estalar.)


Pergunto se o cego que vê Deus

enxergará.

Debaixo do seu peso insustentável

o amor não responde.


Sonhei ser belo como os italianos

e, espantalho,

meu corpo se deteriora com o vento.


O verso e seu silêncio não me salvam.

E por mais que tente

sou menor que minha esperança.


Entretanto, não quero escrever sobre paredes.

Paredes não sangram.



DAS CONFIGURAÇÕES


Meus olhos fixos na cristaleira antiga.

Há qualquer coisa de eterno em seu mármore,

em seu orgulhoso espelho coberto de tempo.

(Quantos já choraram seus licores?)

Meus olhos fixos na cristaleira antiga.

Há sombras de valsas, de tangos, de bailes, de

[flautas e pianos.

Há vidas em suas poeiras. Há mãos.

Estou a um passo de algo que desconheço,

[mas intuo.

Estou a um passo da loucura. Ou da utopia.

Estou a um passo do que poderia ter sido:

eu diante de mim-cristaleira muda.

Estou aqui. Pedra fixa em um ponto qualquer.

Aprendendo o pássaro

– pés presos no salto; asas presas no vôo.

(Como a Arte que persiste em me apontar falhas.)

Ousando unicamente a possibilidade do poema.

[Ou do futuro.

Como um cego a flutuar no escuro.

A um passo da Morte. Ou a um passo de Deus.



ORÁCULO


mas não quero falar disso agora.

preciso modular minha FM preferida.

acertar minhas ondas hertzianas. jogar meus vídeos.

ver minha TV desfocada.

terminar meu quadro imaginário.

pensar palavras nunca escritas.

ser inteligente. admirável. bonito. e olhos espertos.

[galantes.

ouvir marvin gaye em CD.

ceder às minhas idiossincrasias. polissemias. hipérboles.

[agonias.

curtir meus deuses injustos. meus canibais preferidos.

minhas chuvas de abril. meu rock sem sexandrugs.

minhas vertigens. delírios. minhas camas desfeitas.

meus uis. ais. meus apótemas.

me perguntar o que é apótema.

fazer teses de gaveta. construir teias, telas, estratagemas.

GEMAS.


mas não quero falar disso agora.

entenda. pegar meu barco à vela. meu travesseiro.

meu lexotan. minha incoerência.

eu X o tempo.

eu questionário incorrigível.

eu X eu - matemática imponderável.

preciso de um céu imprevisível.

uma morte não anunciada.

um sofrimento exato e incontrolável.

um mar. viajar em sereias e trepar com deusas insensatas.

não ter medo de deus. não ter medo de adeus.

[não ter medo de.

veludos azuis. abajur vermelho. tangos e

[boleros. facas agudas.

samambaias penduradas na sala de jantar.

mortos passeando nos jardins. um filme de

[Mojica Marins.


mas não quero falar disso agora.

tantas idas e vindas. dor no coração fodido.

vôo e nem acredito.

vôo e nem domingo.

sábado e nem comigo.

vôo e nem futuro.

só preciso disso:

a paz inalcançável do gesto da mão no ar no vento

como um corte lento e gosmento.

silencioso. brutalmente silencioso.

como um poema. límpido como um santo caído

[das nuvens.

como um poema. gênesis.

como um poema. estupidamente triste.

como um poema. sutil e inacabado.

como um poema. belo e qualquer.


mas não quero falar disso agora.



Manuel Bandeira - Antologia 3


Livro: Carnaval


Vulgívaga


Não posso crer que se conceba

Do amor senão o gozo físico!

O meu amante morreu bêbado,

E meu marido morreu tísico!


Não sei entre que astutos dedos

Deixei a rosa da inocência.

Antes da minha pubescência

Sabia todos os segredos…


Fui de um… Fui de outro… Este era médico…

Um, poeta… Outro, nem sei mais!

Tive em meu leito enciclopédico

Todas as artes liberais.


Aos velhos dou o meu engulho.

Aos férvidos, o que os esfrie.

A artistas, a coquetterie

Que inspira… E aos tímidos – o orgulho.


Estes, caçô-os e depeno-os:

A canga fez-se para o boi…

Meu claro ventre nunca foi

De sonhadores e de ingênuos!


E todavia se o primeiro

Que encontro fere toda a lira,

Amanso. Tudo se me tira.

Dou tudo. E mesmo… dou dinheiro…


Se bate, então como estremeço!

Oh, a volúpia da pancada!

Dar-me entre lágrimas, quebrada

Do seu colérico arremesso…


E o cio atroz se me não leva

A valhacoutos de canalhas,

É porque tremo pela treva

O fio fino das navalhas…


Não posso crer que se conceba

Do amor senão o gozo físico!

O meu amante morreu bêbado,

E meu marido morreu tísico!


DEBUSSY


Para cá, para lá…

Para cá, para lá…

Um novelozinho de linha…

Para cá, para lá…

Para cá, para lá…

Oscila no ar pela mão de uma criança

(Vem e vai…)

Que delicadamente e quase a adormecer o balança

—Psio… —

Para cá, para lá…

Para cá e…

– O novelozinho caiu.



A DAMA BRANCA


A Dama Branca que eu encontrei,

Faz tantos anos,

Na minha vida sem lei nem rei,

Sorriu-me em todos os desenganos.


Era sorriso de compaixão?

Era sorriso de zombaria?

Não era mofa nem dó. Senão,

Só nas tristezas me sorriria.


E a Dama Branca sorriu também

A cada júbilo interior.

Sorria como querendo bem.

E todavia não era amor.


Era desejo? – Credo! De tísicos?

Por histeria… quem sabe lá?…

A Dama tinha caprichos físicos:

Era uma estranha vulgívaga.


Era… era o gênio da corrupção.

Tábua de vícios adulterinos.

Tivera amantes: uma porção.

Até mulheres. Até meninos.


Ao pobre amante que lhe queria,

Se lhe furtava sarcástica.

Com uns perjura, com outros fria,

Com outros má,


— A Dama Branca que eu encontrei,

Há tantos anos,

Na minha vida sem lei nem rei,

Sorriu-me em todos os desenganos.


Essa constância de anos a fio,

Sutil, captara-me. e imaginai!

Por uma noite de muito frio,

A Dama Branca levou meu pai.

3 comentários:

  1. Poxa! fiquei zonzo. E com vontade de não-sair!

    Parabéns pelo blogue.

    Abraço.

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  2. poema surgido após leitura de Auto-estrada para Tebas de Marcus Vinícius Quiroga

    MNÉMÊ(NTIRA)
    a Marcus Vinícius Quiroga

    O que é o real diante da dor avara
    árida dádiva burilada de, num repente
    fidedignamente sentir-se vivo?

    O que senão derivação de sonho?
    A ponta fina da agulha, aguilhão
    aguilhoando a besta-fera da vida.

    O que é para ser do amor inventado
    para a consumação metafísica
    e que é capaz, senão de ser
    o amor maior do mundo
    de certo, sempre, um amor maior
    que o do ser amado.

    Da realidade, só a mentira tísica
    justa e cristalina, antropomórfica
    estrada plana para o auto-engano
    fenomenologia escassa
    para a hipossuficiência.

    O que é o viver, senão
    o que ao sentido se já retira
    como no circo de cavalinhos;
    verdade atrelada a ausência
    mas que cavalga
    a toda brida sob o pano.

    Ricardo Reis 2010

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  3. Oi Marcos
    Aqui é o Hugo Virgilio que participou do bate papo com você na oficina literaria gostei muito e volte sempre.

    E-mail: huguinho.pzr@hotmail.com

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